terça-feira, 13 de outubro de 2020


 LÍLIA TAVARES, in EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS (Seda Publ., 2015)

Sei que virá um dia
Em que já não me acharás
Nem aos meus olhos,
Peixes ávidos e negros
Para beber dos teus
Nem aos meus braços,
Longas asas cansadas
Que terão partido.
Não serei já o teu quente abrigo.
De rochedo em rochedo
Vivi como anémona batida
Pelo sal de muitas vagas.
Sei que para ti, misturada
Com o íntimo verde das ondas,
De uma noite sem brilhos
Farei germinar estrelas.
Não acredites na morte
De quem trocou a solidão
Por uma alma habitada.
Na ternura branca
da areia liberta
no adeus da maré cheia
Faremos amor pela primeira vez
Pois a morte nos libertará…
*
Fotografia de ©Soledade Centeno