quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Improvisos de Ademar Ferreira dos Santos


 

Improviso para dedilhar a última harpa…

Viajar sempre num labirinto de cordas
as mãos suspensas
e intimamente desvendar a fonte
o segredo
da harmonia de todas as vozes
em nenhuma casa
fomos mais felizes do que nessa
e em tempo algum.

Ademar
17.04.2010


Improviso para pedir esmola


A despir-me nas palavras

descurei o guarda-roupa
e a nudez visitou-me
entre rasgões e remendos
não
não me sirvas mais
à mesa do desejo

o vinho
nem a antologia
veste-me apenas
como um sem-abrigo
e diz-me depois
antes não
que me queres assim.

Ademar
30.04.2010

Improviso para encaixilhar a última ceia…

Só as crenças
que comem
à mesma mesa farta
todos os dias
engordam
e as mais perenes
são as que se alimentam
do maior dos milagres
e das mentiras
a ilusão do poder
sobre a morte.


Ademar
01.04.2010

terça-feira, 13 de outubro de 2020


 LÍLIA TAVARES, in EVOCAÇÃO DAS ÁGUAS (Seda Publ., 2015)

Sei que virá um dia
Em que já não me acharás
Nem aos meus olhos,
Peixes ávidos e negros
Para beber dos teus
Nem aos meus braços,
Longas asas cansadas
Que terão partido.
Não serei já o teu quente abrigo.
De rochedo em rochedo
Vivi como anémona batida
Pelo sal de muitas vagas.
Sei que para ti, misturada
Com o íntimo verde das ondas,
De uma noite sem brilhos
Farei germinar estrelas.
Não acredites na morte
De quem trocou a solidão
Por uma alma habitada.
Na ternura branca
da areia liberta
no adeus da maré cheia
Faremos amor pela primeira vez
Pois a morte nos libertará…
*
Fotografia de ©Soledade Centeno